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A
CARNE
Richard
Simonetti
Era muita gente falando
em abstenção de carne, principalmente por parte dos médiuns.
A médium incomodava-se,
sentindo-se em falta porque não dispensava um bife, não tanto pelo prazer, mas
por recomendação médica.
E perguntou ao
Chico:
- Chico, como é que fica
esse negócio da carne? Preciso comer, tenho uma
deficiência...
E o
médium:
- Calma, minha filha, eu
também saboreio meus bifinhos...
Não raro deparamo-nos com
campanhas dentro do Movimento Espírita a apregoar que a carne dificulta nossa
espiritualização, situando-nos em baixos níveis vibratórios.
Não seria demais lembrar
com Jesus (Mateus 15:18-19), que não é o que entra pela boca que contamina o
homem, mas o que sai da boca, porque procede do coração.
E do coração, afirma o
mestre, procedem maus pensamentos, assassínio,
adultério, prostituição, furto, falso testemunho, blasfêmia.
Por outro lado, atendemos
à questão 723, de o Livro dos Espíritos: Com relação ao homem, a alimentação
animal é contrária à lei da Natureza!
Resposta: Na vossa
constituição física, a carne alimenta a carne, pois, do contrário, o homem
perece. A lei de conservação lhe impõe o dever de conservar as suas energias e a
sua saúde, para cumprir a lei do trabalho.
Ele deve alimentar-se,
portanto, conforme o seu organismo.
A última afirmação do
mentor espiritual define bem a questão. A carne será usada à medida que a pessoa
sinta necessidade dela.
Conheço pessoas que
nasceram vegetarianas. Não se abstêm de carne por princípio
religioso, ecológico ou regime alimentar. Simplesmente, nunca sentiram vontade de comer carne e até lhe têm
aversão.
Dir-se-ia que são
espíritos evoluídos em trânsito pela carne no desdobramento de gloriosas
missões...
Negativo.
São pessoas comuns que
não se estacam nem por grandes virtudes, nem por patentes
defeitos.
Apenas seu corpo não pede
esse tipo de alimento. E não se sentem em débito com proteínas, lipídeos,
vitaminas, minerais e outros componentes da carne que atendem à nutrição.
Valem-se, para tanto, de outros alimentos do reino vegetal, assimilando-os muito bem.
Há a questão
mediúnica.
Ainda aqui se impõe não a
abstenção, mas a frugalidade.
Oportuna a observação de
André Luiz, a respeito, no livro Desobsessão, psicografia de Chico Xavier e
Waldo Vieira:
Aconselháveis os pratos
ligeiros e as quantidades mínimas, crendo-nos dispensados de qualquer anotação
em torno da impropriedade do álcool, acrescendo observar que os amigos ainda
necessitados do uso do fumo e da carne, do café e dos temperos excitantes, estão
convidados a lhes reduzirem o uso, durante o dia determinado para a reunião,
quando não lhes seja possível a abstenção total,
compreendendo-se que a posição ideal será sempre a do participante dos trabalhos
que transpõe a porta do templo sem quaisquer problemas alusivos à
digestão.
Alegam alguns autores que
o consumo da carne é proibido aos participantes de reuniões de efeitos físicos,
passível de perturbar a ação dos espíritos, na manipulação do ectoplasma, que
viria contaminado pelo magnetismo do defunto animal convertido em
repasto.
Não obstante,
significativo considerar que não há nenhuma observação de Kardec sobre o
assunto, algo que deveria constar principalmente em O Livro dos Médiuns, que
disciplina o intercâmbio com o Além.
O que pode perturbar o
processo mediúnico não é o teor vibratório da carne, mas a dificuldade maior de
metabolização, particularmente da carne vermelha, produzindo sono e modorra, o
que elimina a atenção indispensável ao sucesso da reunião.
Ainda aqui o ideal não é
evitar a carne, mas reduzir drasticamente não só a sua ingestão, como a de
qualquer outro alimento. Algo mais leve, de fácil trânsito
digestivo, favorecendo uma participação ativa, sem acenos de
Morfeu./
Quanto ao mais, lembremos
que Hitler era vegetariano e Chico Xavier comia seus bifinhos.
Richard
Simonetti é escritor e presidente do Centro Espírita Amor e Caridade, em
Bauru-SP
Fonte: Folha Espírita - jan/08.
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