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MENTALIDADE ESPÍRITA
                                   Deolindo Amorim ¹ 

            O estudo metódico traz resultados mais satisfatórios do que o estudo irregular, feito a esmo, sem programa, sem ordem, sem objetivo. A didática também se aplica, portanto, ao ensino da Doutrina Espírita. E claro que, para se iniciar um curso de Espiritismo, não é possível começar pelas sessões práticas ou experimentais, estudando fenômenos e médiuns, porque é indispensável o preparo teórico, o conhecimento, pelo menos, das noções gerais da doutrina. Ninguém começa estudando a química pelas experiências de laboratório, sem haver, antes, estudado as leis, sem saber como utilizar certos instrumentos, etc.. Seria perigoso pôr um indivíduo, inteiramente despreparado, sem teoria de espécie alguma, dentro de um laboratório espiritual, e uma sessão mediúnica exige muito senso de responsabilidade, os problemas ainda são mais complexos. Como, pois, entrar no campo da prática espírita sem conhecimento da doutrina, sem orientação cuidadosa? Isto seria puro empirismo, e o Espiritismo é, todo ele, baseado em leis e princípios. A teoria deve ser ensinada antes da prática. Nossos estudos doutrinários têm, entretanto, outro objetivo, e este, para nós, é ainda mais amplo e decisivo: formar mentalidade espírita. Que quer dizer mentalidade espírita? É a mentalidade de quem, tendo estudado e compreendido a doutrina, ACEITA conscientemente os princípios e a responsabilidade que dela decorrem. Mentalidade espírita não é, portanto, a de quem apenas acredita na manifestação dos espíritos ou de quem simplesmente gosta de freqüentar sessões espíritas. Não. Há muita gente que tem fé, sinceramente, no poder dos espíritos, não falta às sessões mediúnicas no centro a que pertence, e não tem mentalidade espírita, porque acredita em superstições, ainda tem o seu altar, ainda admite “milagres”, etc., etc.. Isto, evidentemente, não é a verdadeira mentalidade espírita. Constantemente encontramos pessoas, aliás muito bondosas, que fazem parte de centros espíritas, comparecem religiosamente às sessões mediúnicas, mas pensam como católicas, não pensam como espíritas. O fato de acreditar nos espíritos nem sempre modifica a mentalidade. Notemos que Allan Kardec disse, categoricamente, em Obras Póstumas, que ESPÍRITA ou espiritista (se preferem este último termo) é quem concorda com os princípios da doutrina e com eles CONFORMA o seu proceder. Este conceito, como se vê, traz implicações de ordem moral. Veja-se bem o pensamento de Kardec: O Espiritismo “não reconhece como seus adeptos senão aqueles que lhe praticam os ensinos e trabalham por MELHORAR-SE MORALMENTE, esforçando-se por vencer os maus pendores, por ser menos egoístas e menos orgulhosos...”

            Há muita gente, que estuda e conhece o Espiritismo e nem por isso tem mentalidade espírita. Assim como se encontram pessoas que acredita no Espiritismo e têm mentalidade católica, porque ainda falam em castigo do céu, ainda aceitam o pecado original, ainda têm medo de Deus, também se encontram pessoas que, embora se digam espíritas, porque acreditam nos fenômenos, ainda têm mentalidade materialista, porque vivem, exclusivamente, em função dos interesses materiais, são indiferentes aos altos valores do espírito, dão mais importâncias às coisas imediatas do que às coisas que dizem respeito à espiritualidade, porque só pensam em gozar, aproveitar a vida enquanto é tempo... Isto é mentalidade espírita? Não, absolutamente. Logo, não basta ser crente ou ser médium para ser espírita. Há muitas tradições religiosas, e algumas delas já fazem parte, até, de nosso folclore; embora sejam inofensivas, não se coadunam de forma alguma com o Espiritismo. Uma dessas tradições, por exemplo, é a de se fazer distribuição de ”balinhas” no dia de Cosme e Damião. A formação da mentalidade espírita tende a fazer a criatura humana desprender-se gradativamente de tudo isto.

Respeitamos todas as crenças, não combatemos nem devemos combater ou depreciar as convicções alheias, especialmente porque todas as idéias e práticas religiosas correspondem a necessidades espirituais inerentes ao plano evolutivo de cada indivíduo ou grupo, assim como às condições da cultura e do ambiente. Além de tudo, o respeito aos sentimento e às opiniões do próximo é também caridade. Isto não impede, todavia, que o Espiritismo, pela sua influência renovadora, concorrendo para o progresso espiritual daqueles que lhe seguem a orientação doutrinária, tenha conseqüências capazes de formar um tipo de mentalidade diferente, emancipada de superstições, fatalismo ou idolatria de qualquer espécie. Se, portanto, o Espiritismo pode formar outra mentalidade, mais arejada, mais consentânea com o desenvolvimento da Ciência e com a compreensão da vida espiritual, é claro que também preconiza, implicitamente, outros padrões de comportamento. O espírita não pode se um tipo esquisito ou excêntrico, um marginal socialmente falando, porque o espírita esclarecido tem o dever de melhorar o seu comportamento na vida particular, como na vida social, sem chegar aos exageros, às atitudes ridículas. Todas as conseqüências do Espiritismo nos levam ao equilíbrio.

           Notemos que todos os ensinos morais do Espiritismo se firmam sob o princípio da RESPONSABILIDADE pessoal: o homem é responsável pelos seus pensamentos, pelos atos, sejam públicos, sejam ocultos. A Doutrina Espírita, realmente, não tem tabus, não tem sistema de condenações, não instituiu nenhum código de proibições, porque é uma doutrina que não amedronta, não prescreve regras de vida privada, mas desperta no homem o sentimento de responsabilidade: cada qual é responsável pela sua consciência, cada qual deve saber O QUE DEVE E O QUE NÃO DEVE FAZER, como deve saber distinguir o que é lícito e o que é ilícito, o que é digno  e o que é indigno. Sem estabelecer regras escritas, sem descer a minúcias domésticas, a Doutrina Espírita, quando bem compreendida, tem conseqüências muito mais amplas e sérias do que parece, porque exige, sobretudo, a REFORMA MORAL do homem.

Há muitos materialistas que, na forma de proceder, parecem muito mais espiritualizados, muito mais moralizados do que certos crentes, certos indivíduos, destituídos de qualquer noção de disciplina espiritual, porque são excessivamente egoístas, despóticos e viciados. É claro que a mentalidade Espírita não aprova quaisquer “presunções de santidade” nem roupagens de puritanismo, porque o homem é o que é, não é aquilo que nós desejamos que ele seja; mas todo aquele que se integra realmente na Doutrina Espírita tem o dever de procurar, dia a dia, ser melhor. Todas as normas básicas do Espiritismo, no que diz respeito ao comportamento pessoal, se resume nessa criteriosa expressão de Allan Kardec: “Conhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas inclinações más”. Isto constitui a síntese de todas as conseqüências da doutrina. Fora disto, é inútil, a crença pura e simples nos espíritos, como é inútil a especulação filosófica por mero prazer intelectual, sem repercussão nas ações pessoais.

 

1 – AMORIM, Deolindo. Cadernos Doutrinários. Salvador: Círculos, pp 77 a 80.

 


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