|
|
|
O espírito e os ossos do anatômico |
|
|
|
Os ossos estavam brilhantes, com uma leve camada de verniz. Eram perfeitos. Eu os levara para casa visando estudar para a prova de anatomia. Transcorria o mês de março de1966, tinha eu 18 anos. Obtive a autorização do professor Nogueira, chefe do anatômico. Naturalmente, não eram todos os ossos do corpo humano. A prova seria efeturada na segunda feira, e um determinado grupo de ossos fora elegido para que soubéssemos na ponta da lingua todos os detalhes. O osso esfenóide parecia-me o mais difícil. Havia dezenas de saliências, reentrâncias e pequenos orificios ( foramens). Cada detalhe deveria ser minuciosamente descrito e correlacionado com a entrada ou passagem de um nervo, artéria ou músculo. Eu estava radiante, pela possibilidade de passar o fim de semana com aqueles ossos e na primeira prova DA FACULDADE DE MEDICINA conseguir uma nota excelente. Realmente, com o livro do Dr. Gardner e a volumosa coleção atlas de anatomia, presente do meu tio Mário Di Bernardi, passei sexta a noite, sábado e domingo com aqueles ossos. Até hoje, me recordo de alguns detalhes ( apenas alguns...) do que estudei há quase 40 anos atrás. Não esperava, no entanto, uma surpresa proporcionada pelo "dono" dos respectivos órgãos...
Antes de tudo, não resisto a referenciar que quase consegui a nota desejada. Quando comecei a descrever algumas minúcias, procurando exibir-me falando da relação com o nervo ótico e tudo mais, com o famigerado osso esfenóide, nosso professor colocou-me no lugar de calouro de 18 anos, excessivamente entusiasmado. Ele sempre dissera: nota 10 para o assistente do professor e 9 para o aluno. Endereçou-me algumas perguntas sobre patologias que incidiam ali, correlações clínico-cirúrgicas e outras, me ensinando , sutilmente, que a vida toda sempre haveria algo mais a estudar sobre qualquer órgão...
Bem, realmente a nota foi 9!
Depois desta, as demais ficaram sempre em torno do 7. Nove, em anatomia, por mais que eu estudasse, nunca mais... Mas, voltando ao dono dos ossos... Segunda feira, prova oral feita, satisfeito com o resultado e já aprendendo a primeira lição de humildade ( ainda preciso aprender muito nesse mister...), meu pai convidou-me para a sessão mediúnica, que se ralizava no segundo andar da farmácia homeopática do meu tio João Di Bernardi. Eu já studava a comunicação com o mundo extrafísico desde os 13 anos, frequentava os estudos na FEC- federação espírita catarinense. Após toda a preparação prévia, concentração, leituras, comunicação dos mentores, Passou-se à fase do atendimento aos espírtos em desequilíbrio psíquico. Uma senhora, que estava bem à minha frente na mesa, dá passagem em transe psicofônico, a uma entidade que assim se expressava:
- Vim aqui reclamar da profanação dos meus ossos!...
O dirigente da sessão, meu pai Aldo Di Bernardi, hábil e inteligentemente conduziu o encaminhametno:
- Pois não, meu irmão (era seu hábito este tratamento ), em que posso ajudá-lo?
- Estou aqui para denunciar a falta de respeito com meus ossos...
- Mas seus ossos não estão devidametne enterrados no Cemitério?
- Não ! Não tive esta oportunidade, eu era um indigente sem família e nem isto pude ter.
- Sim, continue, estamos lhe ouvindo com toda atenção e respeito...
- Nem mesmo um enterro pude ter. Nem um sepultamento digno...
- Em que podemos lhe ajudar? A esta altura, eu já estava meio encolhido na cadeira...
- Vim, aqui, tirar satisfações disto. Exijo uma reparação !
- Meu irmão, (sempre o mesmo tratamento), você vai ser atendido com toda atenção e vai descobrir que sua situação é melhor que a de todos, neste aspecto...
- Que absurdo! você gostaria que seus ossos fossem profanados?
A esta altura eu já fazia fervorosa prece... Pedindo que uma luz iluminasse o entendimento do espírito e sobretudo do meu pai que soubesse dar uma sequencia adeaquada... Meu pai continuava:
- Caro irmão, quando eu desencarnar, isto é deixar este corpo físico, meus ossos irão desaparecer, absorvidos pela terra.
- E, eu com isso ?
- Escute-me com atenção: O corpo de cada um de nós irá desaparecer e se integrar a terra. Neste mmomento lembrei-me da etmologia de cadáver, carne dada aos Vermes...O espírito continuou através da médium:
- E nem isto eu pude ter...
- Escute-me até o fim. Dirigindo-se a senhora em transe - Peço a médium auxilie ,evitando que ele fale-
- Não, você neste aspécto sempre será um homem útil a sociedade.Seus ossos serão para sempre conservados, admirados.Não serão destruídos nem absorvidos pela terra. Estudantes se debruçarão sobre eles, noites a fio, aprendendo para se tornarem médicos. Muitas gerações se passarão. Graças a estes ossos, formar-se-ão cirurgiões que salvarão vidas de crianças e adultos, clínicoss que diagnosticarão doenças e procederão tratamentos especilizados. Seus ossos serão eternamente úteis a humanidade. congratulo-me com você. veja a luz que se forma ao seu lado e alguém que vem te encaminhar par umlocal agradável. Veja! olhe quem está aí !
- Minha mãe !!!
Para encurtar a história, foi levado... E, sempre quando alguém no anatômico brincava com algum cadáver ou órgaõ, eu ficava arrepiado, imaginando... Sempre que podia tentava falar na continuidade da vida etc... Mas... Parecia ridículo , coisa de fanático ou crendices... Só o tempo ensina quando falar, o que falar ou não falar... Custei a aprender... Quanto aos órgãos, cada vez cuidei mais...
Dr. Ricardo Di Bernardi
Presidente do ICEF- Instituto de Cultura Espírita de Florianópolis
|
|
|
|